Pular para o conteúdo principal

Um Brasil que ninguém gosta de ver





Um Brasil desconhecido pela maior parte da população. Os críticos apontam que o cinema que Cláudio Assis realiza é violento demais. Não gosto dessa afirmação. Violência é um conceito que abrange várias imagens e muitas vezes usamos a palavra para designar tudo aquilo que nos causa incomodo e desconforto. Como se viver no mundo em que vivemos, suportando as mais miséraveis condições de existência do próximo e às vezes, auxiliando na confirmação da nossa hipocrisia social não deixasse de ser formas tão abruptas e marcantes de violência.



Por essas e outras coisas, o filme de Cláudio Assis está em minha galeria de produções nacionais que tem alguma coisa o que dizer. Muitos não gostam. Também não gosto de uma porção de coisas. Mas convivo com as mesmas. ******





Crítica: Daniel Levi (O Globo)


Tá sentindo um cheiro estranho? É a podridão do mundo", diz um homem. "Baixio das bestas" (veja o trailer), novo filme de Claudio Assis é mais uma viagem no universo particular de seu autor. Uma jornada de uma hora e vinte pela miséria, decadência e podridão humana. Decididamente, não-indicado para pessoas de estômagos sensíveis, cabeças fechadas e obcecadas pelo bom gosto.

Assim como em seu primeiro longa-metragem, "Amarelo manga", (2003) e no curta "Texas hotel" (1999), os temas com os quais o diretor parece confortável são sempre desconfortáveis. E, talvez, por isso mesmo, mereçam atenção e reflexão. Ao mesmo tempo, são revisitados situações, enquadramentos e movimentos de câmera que dão às três obras uma unidade incontestável. É como se todos os seus personagens fossem aparentados, próximos, integrantes da mesma Comunidade. No universo "mundo cão" dos três filmes, eles dariam a mão a cantarolar. Heresia; estamos falando dos personagens de Claudio Assis. Eles iam é se matar na porrada.

"Baixio das bestas" irá desagradar - e incomodar, enojar - muita gente, mas também irá acertar em cheio o público de "Amarelo manga" e "Cronicamente inviável" (2000, de Sérgio Bianchi). Há momentos em que o filme parece querer ser um tapa na cara da classe média brasileira, um basta no (movimento) "Basta!" ("- A pobreza vai socializar o mundo!", - grita o personagem de Matheus). Há outros em que a sensação de gratuidade e do choque pelo choque incomodam tolamente. Até a "participação afetiva" - praga que assola as produções nacionais, muitas vezes comprometendo a seriedade do filme - está lá, na figura de seu diretor (com uma participação maior do que a de seu filme de estréia) e do diretor de fotografia, Walter Carvalho.

Baixio das bestas" é um filme contundente, tenso, violento e - como não podia deixar de ser - polêmico. É esplendidamente fotografado em CinemaScope - como em "Amarelo manga" -, com muita câmera na mão, ótimos planos-sequência e um desempenho visceral de seu elenco. É uma obra importante dentro da (pouca) variedade do cinema brasileiro, e mais um "pé na porta" de fora do eixo Rio-São Paulo, que já nos brindou com "Cinema, aspirinas e urubus" e "Cidade baixa". "- Sabe o que é o melhor do cinema? É que no cinema tu pode fazer o que tu quer" - diz o personagem de Matheus. E é isso que Claudio Assis faz. O que quer. Aparentemente, sua intenção de chocar é muito clara. O que não quer dizer que, através de um olhar mais atento, não se perceba o quão importantes são as denúncias que faz. Suas pertinências são mais que relevantes. Ao preferir não tapar o sol com a peneira, ele joga um foco de luz na parte "mundo cão" de nosso mundo. De nosso país. Pode-se não gostar de seu estilo cinematográfico. No mundo real, entretanto, dar as costas não é uma opção.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arte e Sensibilidade

Minha noite começa com Pedro Almodovar e sua obra prima. Arte, sensibilidade, emoção e simplicidade quando se juntam resulta nisso. Um filme irreparável cheio de impressões e sentimentos. Que bom que exista coisas como Almodovar para mostrar que existe vida inteligente diante de tanta hipocrisia e baixaria em nossa volta. OUTRAS IMPRESSÔES Pedro Almodóvar tem um dom raro. Ele consegue transformar histórias bizarras em obras de arte únicas de sensibilidade extrema. Tais histórias, em mãos erradas, poderiam se tornar meros melodramas fadados ao fracasso e ao escracho geral, tanto de público quanto de crítica. Em Tudo Sobre Minha Mãe , o diretor consegue o seu trabalho máximo, com características marcantes de toda sua filmografia, como por exemplo o seu amor declarado pelas mulheres, o drama íntimo e pessoal de cada personagem trabalhado de maneira única e tudo recheado com as melhores referências cinematográficas possíveis, nunca beirando o plágio ou oportunismo. ...

A culpa não deve ser do sol

Em vários momentos da leitura dos contos de Geovani Martins, trechos da canção "Caravanas" de Chico Buarque veio em minha mente. O que temos em mãos são narrativas que recolhem o que há de mais bárbaro e ao mesmo tempo o mais lírico da cidade do Rio de Janeiro. A cidade maravilhosa é recortada e colocada em cheque em cada viela e becos das histórias narradas. A sensação de abandono e exclusão social nos leva uma reflexão que não é tão fácil assim de se fazer. Como aponta a canção "A culpa deve ser do sol que bate na moleira, o sol". Uma viagem nada sentimental sobre a sociedade brasileira.