domingo, 8 de julho de 2012

Martinho e a dificuldade da renovação

Martinho da Vila sempre está na minha cartola de canções essenciais e sempre aguardo com expectativa seus trabalhos. Entretanto nos últimos anos, Martinho vem se pautando por uma excessiva revisão em sua discografia. Seu último CD de inéditas é de 2007. De lá pra cá, regravações de sucessos e se prestarmos atenção, quase das mesmas canções.
Falta de criatividade tenho certeza que não é. O compositor Martinho sabe extrair poesia das coisas mais simples e elevá-las a obras primas. Espero que em outra oportunidade, Martinho volta a ser aquele arrojado artista que surpreende seus ouvintes com narrativas sensacionais. Todo mundo sabe da importância das canções "Menina Moça"; "Casa de Bamba"; "O Pequeno Burguês", mas estas canções estão nos seus últimos três discos. Se pelo menos os arranjos apresentassem novidades, mas fica na releitura do sucesso. Não era necessário.Apesar disso, 4.5 é o cd do momento em minha trilha sonora, mas logo depois corro e coloco  jóias preciosas de Martinho como o cd "Coisa de Deus"; "Voz e Violão"; "Verso e reverso"; "Rosa do Povo".......
Cotação: ***

Tudo sobre Minha Mãe

"Uma pessoa é tanto mais autêntica quanto mais se parece com aquilo que ela sempre sonhou para si mesma". (Pedro Almodovar)

Arte e Sensibilidade

Minha noite começa com Pedro Almodovar e sua obra prima. Arte, sensibilidade, emoção e simplicidade quando se juntam resulta nisso. Um filme irreparável cheio de impressões e sentimentos. Que bom que exista coisas como Almodovar para mostrar que existe vida inteligente diante de tanta hipocrisia e baixaria em nossa volta.

OUTRAS IMPRESSÔES

Pedro Almodóvar tem um dom raro. Ele consegue transformar histórias bizarras em obras de arte únicas de sensibilidade extrema. Tais histórias, em mãos erradas, poderiam se tornar meros melodramas fadados ao fracasso e ao escracho geral, tanto de público quanto de crítica. Em Tudo Sobre Minha Mãe, o diretor consegue o seu trabalho máximo, com características marcantes de toda sua filmografia, como por exemplo o seu amor declarado pelas mulheres, o drama íntimo e pessoal de cada personagem trabalhado de maneira única e tudo recheado com as melhores referências cinematográficas possíveis, nunca beirando o plágio ou oportunismo.
Esteban (Eloy Azorín) é um precoce escritor de dezessete anos que, em seu aniversário, pede como presente a sua mãe, Manuela (Cecilia Roth), para ir a uma apresentação da peça "Um Bonde Chamado Desejo" (no cinema, Uma Rua Chamada Pecado, com Marlon Brando e Janet Leigh). Após o término, Esteban espera ansiosamente pela saída da estrela Huma Rojo (Marisa Paredes) dos camarins, a fim de pegar um autógrafo com ela. Em meio ao temporal, Esteban é atropelado, falecendo logo a seguir no hospital. Sozinha, sua mãe decide voltar para Barcelona, cidade de onde fugira há alguns anos atrás, para encontrar o pai do menino, que vive como travesti, e dar-lhe a difícil notícia.
No caminho de Manuela cruzam diversos outros personagens, como Agrado, sua grande amiga travesti interpretada por Antonia San Juan; Hermana Rosa, uma boníssima mulher que trabalha em uma instituição de ajuda às pessoas, interpretada pela bela Penélope Cruz (Vanilla Sky, Profissão de Risco); e a própria Huma Rojo, interpretada pela ótima Marisa Paredes, atriz em franca expansão no circuito internacional. Há ainda alguns personagens secundários, como os pais da irmã Rosa e a própria Lola, pai de Esteban, que aparece na história quase no fim, mas com sua importância justificada ao extremo.
O bacana é que nada é gratuito, tudo está em seu mais perfeito lugar. Todos os personagens que rondam a vida de Manuela trazem algum significado novo, uma reflexão ou dão força para as suas ações. Almodóvar vai costurando todas as pontas dos dramas individuais com seu tradicional modo de nos prender à história, por mais bizarra que sua sinopse possa ser. Os acontecimentos estão lá, mas em nenhum momento soam artificiais ou gratuitos. Esse é seu grande mérito, nos fazer acreditar que todo o mundo que está construindo é verossímil, que podem existir pessoas com esses pensamentos e atitudes. Para construir esse seu grande e bizarro ambiente, Almodóvar usa e abusa das cores fortes nos cenários, nos figurinos e das mais belas canções latinas, características fortes de toda sua filmografia.
Apesar de soar meio absurdo para os menos acostumados aos seus trabalhos, o roteiro do Almodóvar é sempre coerente e com conteúdo. Ele não nos poupa das probabilidades que os rumos de suas histórias vão tomando, mas também não deixa que os acontecimentos soem em tons ofensivos. Quanto mais ele vai abrindo seu leque de situações com pequenas reviravoltas, mais vai construindo um background rico para seus personagens e humanizando seus dramas. Não existem heróis nem vilões, apenas pessoas que erram ou acertam em suas vidas. O roteiro reserva ainda espaço para discutir a força e admiração às mulheres que Almodóvar assumidamente tem, porque, tirando o falecido Esteban, todos os personagens principais são femininos, sejam homens ou mulheres.
Para rechear ainda mais o conteúdo de seu trabalho, o diretor faz duas belíssimas homenagens à obras já clássicas. A mais óbvia é a peça que ambientaliza a personagem Huma, Um Bonde Chamado Desejo. A cada vez que via um dos personagens exercitando o seu potencial em cena, sentia um enorme prazer ao lembrar do belíssimo filme já citado no início desta matéria, Uma Rua Chamada Pecado. O mais interessante é que Almodóvar faz uma referência bastante explícita ao filme A Malvada, incluindo ainda uma cena do original em seu filme que, mais para a frente, se repetiria em atitude pelos personagens. Nina, que faz uma das protagonistas da peça com Huma, acusa Manuela de estar agindo com Huma exatamente como Eve estava agindo com Margo, resultado da cena exibida pelo diretor na obra original.
Uma obra tão rica e complexa não poderia passar despercebida pelas premiações ao redor do mundo. Tudo Sobre Minha Mãe faturou diversos prêmios, entre eles o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, a Palma de Ouro de Direção para Almodóvar em Cannes e sete prêmios Goya, incluindo filme e diretor. Almodóvar voltaria a ser premiado no Oscar dois anos depois, só que dessa vez em uma outra importante categoria, a de Roteiro Original, com seu diferente, porém não menos esplêndido Fale com Ela. Neste mesmo ano, conseguiu também uma surpreendente (porém justíssima) indicação ao prêmio de Melhor Direção, que acabou ficando com Roman Polanski e sua obra-prima O Pianista.
Para quem gosta de cinema diferenciado, que priorize a história e que não deixe de lado uma boa técnica, sabe que os trabalhos do diretor espanhol são mais do que obrigatórios. Considero Tudo Sobre Minha Mãe sua obra prima, mas fica o aviso dos temas pesados que Almodóvar aborda, que podem não agradar aos mais conservadores. Ele faz com que o incomum seja natural, que o escuro se torne claro, na mais bela poesia visual desse maestro sensível na arte de fazer cinema. (Rodrigo Cunha)

O Encanto das Utopias


A prosa intensa de Moacyr Scliar praticamente impede o leitor de largar as páginas desse seu livro, um dos últimos do autor publicados antes de sua morte. Uma narrativa apaixonante que nos aponta a necessidade de acreditarmos em uma utopia para que pelo menos um pouco a nossa vida tenha algum sentido. Irresistivel aventura pelo reino das palavras. E a paixão aumenta pois ao ser indicado pelo vestibular da Universidade Federal de Goiás, podemos realizar várias associações com movimentos históricos e a rica abordagem sociológica que a obra oferece. Um tempo em que utopias como a de uma sociedade comunista dava a esperança de que um mundo melhor podia surgir. Tudo em vão.............

Trechos do Primeiro Capítulo:

De uma coisa posso me orgulhar, caro neto: poucos chegam, como eu, a uma idade tão avançada, àquela idade que as pessoas costumam chamar de provecta. Mais: poucos mantêm tamanha lucidez. Não estou falando só em raciocinar, em pensar; estou falando em lembrar. Coisa importante, lembrar. Aquela coisa de “recordar é viver” não passa, naturalmente, de um lugar‑comum que jovens como você considerariam até algo meio burro: se a gente se dedica a recordar, quanto tempo sobra para a vida propriamente dita?

A vida, que, para vocês, transcorre principalmente no mundo exterior, no relacionamento com os outros? Esse cálculo precisa levar em conta a expectativa de vida, precisa quantificar (como?) prazeres e emoções. É difícil de fazer, exige uma contabilidade especial que não está ao alcance nem mesmo das pessoas vividas e supostamente sábias. Que eu saiba, não há nenhum programa de computador que possa ajudar — e, mesmo que houvesse, eu não saberia usá‑lo, sou avesso a essas coisas. Vejo‑me diante de uma espinhosa tarefa: combinar muito bem a vivência interior, representada sobretudo pela re8 cordação e pela reflexão, com a vivência exterior, inevitavelmente limitada pela solidão, pela incapacidade física, pelo fato de que tenho mais amigos entre os mortos do que entre os vivos. E, de novo, qual a fórmula adequada para essa combinação? Setenta por cento de vivência interior com trinta por cento de vivência exterior? Quarenta por cento de interior com sessenta por cento de exterior? O clássico meio a meio? Ou quem sabe quarenta e cinco por cento de cada — os dez por cento que sobram ficando reservados para aquele misterioso e indefinido território que não é nem interior nem exterior, mas que pode estar em cima, embaixo, ou em dimensão nenhuma?

Não sei. Só sei que recordar é bom, e é das poucas possibilidades que me restam, de modo que recordo. É uma espécie de exercício emocional, é um estímulo para os meus cansados neurônios, mas é sobretudo um prazer. Um prazer melancólico, decerto, mas um prazer, sim, resultante da facilidade com que evoco pessoas, acontecimentos, lugares, uma facilidade que às vezes surpreende a mim próprio. Para alguns, mesmo não muito velhos, o rio da memória é um curso de água barrenta que flui, lento e ominoso, trazendo destroços, detritos, cadáveres, restos disso ou daquilo; para mim, não: é uma vigorosa corrente de água límpida e fresca. Dos barquinhos que nela alegres navegam, lembranças, às vezes melancólicas, mas em geral risonhas, acenam‑me, gentis, amistosas. Estou falando, claro, de memórias remotas, daquelas que estão ligadas à minha juventude. As coisas do cotidiano, eu as esqueço com a maior facilidade.

 Esqueço de apagar a luz, esqueço onde larguei o relógio, esqueço de dar a descarga no vaso sanitário, esqueço até os nomes das pessoas da casa geriátrica onde resido — por opção minha, devo dizer: meus filhos prefeririam que eu continuasse no apartamento, ou então que fosse morar com eles, coisa que recusei: não quero dar trabalho a ninguém. 9 Esquecer, meu neto, é um truque que a natureza usa para nos desligar aos poucos da realidade da existência. Mas não precisamos encarar esse fato como coisa inevitável, mesmo porque lembrar pode ser uma coisa agradável, particularmente quando se traduz na possibilidade de narrar recordações para uma pessoa como tu, meu neto. Considero‑te especial, mesmo que nossos encontros tenham sido raros, ou talvez exatamente por causa disso. Vimo‑nos cinco ou seis vezes, não mais, e sempre rapidamente. Eu sabia que isso iria acontecer: quando teu pai, jovem médico, foi para os Estados Unidos, tive o pressentimento de que não mais voltaria.

 Dito e feito: fez uma carreira bem‑sucedida, casou com uma colega médica, tornou‑se tão americano que até fala com sotaque. Só retornava esporadicamente e por curtos períodos. Alegava que tinha compromissos, mas o fato é que aparentemente não se sentia muito bem aqui. Por quê, não sei, e nunca lhe perguntei. As relações entre pais e filhos muitas vezes estão envoltas em bruma misteriosa, na qual realidade e fantasia se misturam. Eu mesmo pouco posso te dizer de minha mãe (com quem, no entanto, convivi bastante e numa fase difícil de minha vida), e menos ainda de meu pai. Espero que entre nós seja diferente, e a carta que me mandaste reforça essa expectativa. Aliás, parabéns pelo teu português. Para quem nasceu e se criou nos Estados Unidos, é excelente. Teu pai se preocupou em te manter ligado às tuas raízes brasileiras, coisa que sempre admirei.

Releitura de Gabriela

Nas minhas releituras de plantão, fui instigado a reler a obra de Jorge Amado. O que eu mais gosto dessa fase de sua literatura é a liberdade que o autor tem em realizar uma obra extremanente leve mesmo abordando temáticas caras a literatura brasileira. Costumo dizer que o que menos importa no texto é a narrativa de Gabriela e sua aventura de amor com Nacib. O livro traz muitas outras abordagens. Leio Gabriela para acompanhar o discurso político que permeia toda a obra ao colocar em confronto dois projetos políticos para a cidade de Ilhéus que nesse instante se transforma em um microcosmos para entender o projeto de um país. Não vou acompanhar a nova adaptação pois tenho certeza que ela não proporcionará nem metade do prazer e do humor que encontro nas páginas de Jorge Amado.
OUTRAS IMPRESSÕES

Gabriela, cravo e canela inaugura uma nova fase na obra de Jorge Amado. A partir deste romance, o autor atenua o conteúdo político que marcou seus primeiros livros para dar ênfase à mistura racial, ao erotismo e a uma percepção sensorial do mundo. Ganham destaque as personagens femininas: as mulheres passam ao centro das narrativas como mito sexual, mas também como agentes do próprio desejo. Gabriela, cravo e canela foi o primeiro livro escrito por Jorge Amado depois de deixar o Partido Comunista. Publicado em 1958, o romance recebeu no ano seguinte os prêmios Machado de Assis e Jabuti. Pouco depois, em 1961, Jorge Amado seria eleito para a Academia Brasileira de Letras, em grande parte graças ao estrondoso sucesso do livro. Gabriela virou novela da TV Tupi, em 1961, e mais tarde da rede Globo, em 1975. Traduzido para mais de trinta idiomas, Gabriela, cravo e canela é o livro de Jorge Amado com o maior número de traduções. (www.jorgeamado.com.br)

O Incêndio e suas várias versões


Ponto final na leitura reportagem de Mauro Ventura sobre a tragédia do incêndio do gran circo norte americano ocorrido na cidade de Niterói no final de 1961. Ventura recupera com trabalho de carpintaria os dias que antecederam a tragédia:  a movimentação e expectativa na cidade da chegada do maior circo que se tinha noticia, seus espetáculos e principais atrações e finalmente todos os momentos da tragédia que ocasionou a morte de mais de 500 pessoas.
O livro apresenta dois momentos. O primeiro é recolhido dos depoimentos dos sobreviventes e a exposição da noticias da época e o segundo, o relato envolvente e policial do  julgamento sobre os responsáveis por essa tragédia.

OUTRAS IMPRESSÕES:

•Unitevê: Como surgiu a ideia de fazer esse tema para o livro?
 •Mauro: Surgiu a partir de duas figuras muito importantes que foi o “Profeta Gentileza” e o cirurgião plático “Ivo Pitanguy”. O Profeta Gentileza, porque eu via as inscrições que ele fez nas pilastras do Caju, e ficava me perguntando quem era aquela figura. E achava que ele tinha perdido a família em um incêndio em Niterói. Depois descobri que era uma lenda, mas eu não tinha ideia. E o Pitanguy porque eu tinha lido que ele disse que essa tragédia gerou imensas vítimas. E que esse acontecimento tinha sido o mais marcante na vida dele. Aí, juntei essas coisas, e depois descobri que faz 3 anos que a tragédia ia completar 50 anos. Mas, ninguém havia escrito nada sobre o tema. Isso me inquietou, porque era uma coisa muito impactante para a época. Mas na verdade, não havia nada escrito sobre o tema. Eu também quis homenagem as vítimas. Quis mostrar o trabalho dos heróis anônimos, em uma onda de solidariedade que o país nunca havia visto. Também mostrar um pouco a tragédia para que não se repita mais. Mostrar o que aconteceu de errado para que não volte a acontecer.

Unitevê: Você comentou um pouco sobre a tragédia. O que mais te chocou nisso?
•Mauro: Muitas coisas. Uma delas foi o fato de ninguém ter sido indenizado. Outra coisa foi a tristeza do principal hospital da cidade estar fechado na hora em que a população mais precisava. Outra coisa foi o fato das condições do circo: Não tinha saída de emergência, não havia segurança, não tinha extintor de incêndio e a lona era altamente inflamável. Como é que se deixou um circo desses em funcionamento?. Mas nada é tão tristes como as próprias histórias das vítimas que perderam o que havia de mais precioso: a vida.

Unitevê: Como tem sido a repercussão do lançamento do livro?
 •Mauro: Olha, tem sido muito bem procurado, não só por pessoas que viveram a tragédia e que tem retornado dizendo que eu fui muito fiel ao que elas contaram. E se foi assim mesmo, parabenizaram-me por eu ter reconstituído essa estória. E também outras pessoas que não tiveram nada a ver com a estória, falando da importância de um país sem memória como o nosso, de minimamente contar que esse episódio não caiu no esquecimento.

 • Unitevê: E como jornalista, qual é a sua visão para o livro?
•Mauro: O livro tem um estilo chamado de jornalismo literário que é a mesma coisa de romance não-ficção. É você pegar um fato, uma estória real, e dá um tratamento de romance. Não que você vai inventar nada, não. Você está usando um recurso de romance que é quase você entrando na cabeça dos personagens. É até uma narrativa mais literária. O livro é muito isso, filia-se a esse jornalismo literário.
Unitevê: Teve algum momento que você como pessoa ou como jornalista viu que o tema seria ruim ou negativo para ser abordado?
•Mauro: Quando eu comecei a pesquisar, foi difícil conseguir personagens porque as pessoas resistiam muito. Perguntavam: Por que você vai falar de um tema assim? Por que você não fala que Niterói é quarta cidade em qualidade de vida do país, a “Cidade Sorriso”. Por que você vai falar da tragédia, lembrar a tragédia? E ao longo da pesquisa, eu ficava me perguntando: Será que isso vai interessar a alguém? É muito trágico?. Será que as pessoas vão falar?. Ou será melhor deixar como está?. Mas resolvi continuar. Felizmente, vi que era melhor abordar esse tema.

  •Unitevê: O livro possui um cunho jornalístico, literário que você já comentou. É também informativo?
 •Mauro: São três coisas que se misturam: Se é jornalístico tem que ser informativo, essas duas coisas são indiscutíveis. E tem esse tom literário sim. Mas não é uma descrição. Seria muito crua e sem adjetivo, não. Tem uma grande preocupação com o estilo, uma preocupação literária. A ação literária é muito grande. E os cuidados que tive, deu o tratamento literário.

. •Unitevê: E o que você espera do leitor, e o que eu o leitor pode esperar do livro?
•Mauro: É pretensioso querer esperar grande coisa, mas a minha ideia era essa: Que as pessoas conhecessem a estória. O que apresento é uma estória dramática e a maioria das pessoas não a conhece. Acima de tudo, gostaria que se emocionassem e pensem como é que pôde acontecer isso em Niterói, no Brasil. E como é que as pessoas passaram por isso. E sempre reverenciar esses heróis anônimos que foram solidários: Os escoteiros, os médicos de Niterói- uma turma maravilhosa que fez todo o trabalho de graça por mais de um ano e lutaram por mais de um ano pela causa das vítimas, ações das famílias, enfim. Não só que isso se passe, pois se passou um tempo imenso dessa estória, que é muito trágica. Mas que ao tempo, tem lances de heroísmo, de superação e de solidariedade. (www.culturaesaude)

O VENTRE DA DISCORDIA

O primeiro livro que mostrou a importância e o poder da literatura em minha vida foi esse romance de Carlos Heitor Cony. Lembro que aos 14 anos mais ou menos, nunca havia visto um livro que proporcionassem tantas sensações desconhecidas naquele adolescente. A força da narrativa que apresenta um personagem marcada fortemente pela exclusão social e familiar. Mergulhar no intimo desse personagem, ser cumplice de seus segredos e ser coadjuvante de uma história de amor e ódio marcou minha trajetória de vida.
Hoje volto a leitura da obra. Mais de 15 anos se passaram. A força do livro é maior, por vários motivos. Pela minha experiência de vida, pelo resultado das escolhas orientadas e principalmente, pela total identificação com essa narrativa imensamente trágica.

OUTRAS IMPRESSÕES
Originalmente escrito em 1955, "O Ventre" foi inscrito num concurso literário promovido pela ABL (Academia Brasileira de Letras) e pela antiga Secretaria da Cultura do Distrito Federal. Ele narra a trajetória de José Severo, garoto que nasceu em uma família de classe média alta do Rio de Janeiro (RJ) e é categoricamente desprezado pelo pai --o filho é fruto de uma relação adúltera de sua mãe.
José é um adolescente sôfrego, feio como o cão (alto e narigudo), que tem uma relação de amor e ódio com o irmão mais novo, um brando superprotegido e asmático, de intelecto bem desenvolvido. Foi matriculado num colégio interno, enquanto o irmão teve todas as atenções da casa para si. Depois de ser pego fornicando com a vizinha da escola, mulher de um capitão do Exército, José, expulso, ficou proibido de se matricular em qualquer outra escola pública. Largou o Rio de Janeiro e foi dirigir ônibus em Maceió.
A ABL não deu o prêmio para Cony, mas recomendou-o à publicação. "Houve três pareceres, entre eles o de Manuel Bandeira (poeta), afirmando que meu livro era muito forte. Publicaram isso no Diário Oficial", lembra Cony. "O Ventre" causou furor, elegendo o autor, formado em filosofia, à estatura de romancista de prestígio de crítica e público. O livro já vendeu sete edições.

Leia, a seguir, terchos da entrevista que Carlos Heitor Cony deu por telefone em sua casa, no Rio de Janeiro.

Folha - O senhor escreveu o livro para o concurso literário?
Carlos Heitor Cony - Já o tinha escrito antes. Mas o concurso me fez finalizá-lo. Eu não tinha conhecimento da área literal. Eram esses concursos que exigiam pseudônimos.

Folha - E qual era o seu?
Cony- Luís Capeto, pseudônimo do rei Luís 16, quando foi enforcado. Os franceses não enforcavam o rei, mas o pseudônimo, para mostrar que o rei era um cidadão igual a um bastardo.

Folha - Por que não lhe deram o prêmio, apesar de assumirem que era o melhor livro do concurso? Cony- Disseram que era um livro muito forte e cruel. Não só por causa dos palavrões; já havia palavrão na literatura brasileira, como em Jorge Amado. Disseram que esse livro era contra a condição humana. O personagem é um filho da puta, sua mãe também, mas são pessoas normais. O leitor fica com raiva, com repulsa.
Folha - No entanto, ele vendeu sete edições e está sendo relançado.
Cony- Um autor sempre suspeita da permanência de sua obra. Fico feliz por saber que "O Ventre" permanece. É um livro dos anos 50, antes da pílula. As pessoas usavam chapéu. Era no clima da morte de Getúlio (Vargas).

Folha - O cenário, o pessimismo, a burguesia cínica e o adultério são inspirados em Machado de Assis?
Cony- Sim. Com a presença do existencialismo de Jean-Paul Sartre, que me marcou muito. Machado foi um pré-existencialista. A cólera pela condição humana, o personagem alienado.

  Folha - Mas o formato do livro é machadiano.
Cony- É. Vivi ambientes parecidos com o de Machado, mas ninguém percebeu a influência de Sartre na minha obra. Existem cacos que são plágios de Sartre. Copiei insensivelmente, não literalmente.

Folha - O seu pai era semelhante ao pai de "O Ventre", um ausente, ou ao de "Quase Memória", um apaixonado pela vida?
Cony- São totalmente diferentes, mas meu pai está mais para o de "Quase Memória". "O Ventre" é mais romance, apesar de defeitos de carpintaria e o desejo de dizer tudo ao mesmo tempo. "Quase Memória" é uma crônica, não uma história. É uma quase história.